ESCRAVOS DE JÓ

Por Jair Donato*

Certa vez li sobre a explicação que uma pessoa deu, ante a uma tendência quase incontrolável que ela confessava ter para a invenção. Contou ela que numa certa manhã tentou convencer uma moça de que a música infantil “Escravos de Jó” era uma composição poética referente à homossexualidade cujo significado permanecia por centenas de anos.

 

Então relatou que a cantiga vinha dos acampamentos militares espartanos, que se tornaram famosos por incentivar namoros entre os próprios soldados, pois aquela seria uma maneira de lutarem com mais bravura. Esses soldados eram normalmente recrutados entre os escravos. Jó teria sido um general famoso, amante de Péricles numa das mais belas páginas da história antiga devido à rivalidade entre as cidades que pertenciam a ambos. Ele escrevera alguns livros, hoje já perdidos, que estabelecia a relação entre a guerra e a homossexualidade.

 

A explicação para a composição não era difícil de entender. O verso “Escravos de Jó jogavam caxangá” significava que os escravos sexuais de Jó faziam brincadeiras entre eles. Caxangá, em grego vulgar arcaico, era uma dança sensual, vinda da Turquia, um movimento em que os órgãos sexuais dos dançarinos se tocavam.

 

A parte da música “Tira, bota deixa o zabelê (ou Zé Pereira) entrar” era uma referência clara à penetração e à necessária permissão da parte passiva. Enquanto “Guerreiros com guerreiros fazem zig-zig-zá” novamente fazia referências aos jogos sexuais. Isso, claro, configurava uma orgia, realizada alegremente nos acampamentos dos valorosos espartanos. Pronto, aí está a explicação sobre a origem da música. O que você achou?

 

E sabe o que fez a pessoa que ouviu tal explanação? Ela acreditou. Foi aí que o contador de história disse sustentar a ideia de que é fácil convencer as pessoas de quaisquer absurdos que você queira. Basta que alguém não conheça o assunto em questão e você reforce sua teoria com alguns dados pretensamente históricos, e dá certo. Sabe o motivo? As pessoas normalmente têm preguiça de checar as fontes.

 

É mais fácil acreditar leigamente no que alguém diz do que averiguar os fatos. As pessoas partem do princípio de que ninguém é tão idiota a ponto de inventar uma história dessas, conclui o contador dessa história, que afirma ter sido esse o exemplo mais próximo da semiótica que ele teve, quando uma besteira combina com a outra.

 

Embora contido numa aparente brincadeira, isso traz uma reflexão para o cotidiano. Na área profissional e nos relacionamentos em geral, é uma postura de maturidade não acreditar cegamente em qualquer coisa. O que já disseram a você sobre os diversos aspectos da vida? Às vezes, por pura desinformação as pessoas vão repassando uma história que a princípio até possuía alguns elementos verdadeiros, mas que se perdem em pouco tempo.

 

Especialmente com o advento das redes sociais, é comum as pessoas replicarem informações falsas como se fossem reais. E ainda há outro tanto que compartilha com comentários distorcidos, e a situação vira uma bola de neve. E devido a rápida abrangência, se torna pior do que a lúdica atividade do telefone sem fio.

 

Da próxima vez que tiver que repassar uma informação recebida, será prudente verificar a fonte e quem sabe evitar desde o replique de um vírus no seu dispositivo eletrônico ou até quem sabe, um ruído que possa atrapalhar a própria vida.

 

Jair Donato* – Psicólogo, Jornalista, escritor, editor, professor universitário, mestre em Ensino Acadêmico, consultor, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.

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