O PRAZER DE NEGAR

Por Jair Donato*

Sabe o perfil de pessoas que quando você necessita de uma ajuda ou colaboração, antes elas naturalmente negam o que foi solicitado, mesmo sendo possível atender ao pedido feito? Pois é, essa é uma maneira controversa delas se comunicarem. Se você pede uma informação, mesmo que elas saibam, antes negam. Quem age assim só se disponibiliza após o ato concreto de negar. Constata-se que há um tipo de prazer envolvido sempre que algo é negado. Pode ser que elas nem percebam, ou não querem ver. Se isso ocorre ocasionalmente, sem problemas. Porém, se é algo cíclico no comportamento, pode ser o resultado de traços comportamentais que atrapalham a elas mesmas, além de desagradável para os que convivem ao redor.

Mas, o que ocorre em seguida? O negador vem ordeiramente e se presta a fazer o que foi solicitado como se nada tivesse ocorrido, o que pode ser mais uma crise de consciência do que solidariedade. E como autodefesa se justifica dizendo que deu um jeitinho para poder ajudar. Afinal, ele já teve o efêmero momento de prazer ao desapontar o outro, ou se frustrou por ter visto que o outro nem ligou para o que ele não fez. E, quando ele não nega, no mínimo coloca uma série de barreiras e dificuldades para o ato de servir com naturalidade. O prazer pode está em gerar o mesmo desconforto no outro que um dia ela teve, de ter algo negado, é assim que se sente detentor, poderoso. Esse é um movimento que se a pessoa não perceber nem corrigi-lo, provavelmente será replicado pela vida inteira.

Esse é o indivíduo que difere das pessoas agregadoras, que são aquelas que se disponibilizam antes de negar ao menos para ouvir o outro, entender melhor a necessidade dele para depois dar uma resposta certeira, sem arrependimento. É claro que nem sempre podemos atender a tudo que os outros precisam, pois as vezes há limites da nossa parte. Além do que fazer tudo que os outros pedem pode ser doentio. Isso já seria uma linha oposta de quem nega, seria como justificar a anorexia pela bulimia. Qual então o melhor caminho? O equilíbrio, o que é fundamental nas relações. Se você vive em família ou em equipe dentro das organizações, ou até mesmo no meio social com os amigos, é o ambiente onde deve haver a colaboração ou no mínimo, a boa vontade. É óbvio que nem sempre você conseguirá atender a todos, mas negar o tempo inteiro não é atitude saudável. Tanto aquele que diz sim para tudo como o que a tudo nega, sabota a si próprio.

A atitude de negação nem sempre está relacionada a uma postura de maldade, o que não deixa de ser, antes para próprio negador. É que isso de alguma maneira foi aprendido no decorrer da vida e pode resultar-lhe consecutivamente em ganhos secundários, tais como se sentir melhor e mais importante ou ser reconhecido e com poder. Enfim, encontra-se tal comportamento também em gente de boa índole, que se autopune constantemente por agir dessa maneira, o que gera uma imagem negativa em torno de si mesma.

Este é um típico traço característico de neurose: nega, mas faz. É um comportamento que provoca a ilusão de poder e provisão, um alívio momentâneo para a frustração que o próprio sujeito carrega talvez por terem negado a ele no passado os desejos que tinha de liberdade e de posse. Quem sabe um retrocesso a infância do sujeito que age assim possa explicar algo dessa natureza. Pessoas que geralmente foram criadas num ambiente de negação, que foram privadas daquilo que causavam prazer a elas, seja a aquisição de brinquedos, de roupas ou até mesmo de comidas nos momentos que desejavam, podem desenvolver traços de negação na fase adulta. Mas, é óbvio que o mundo nada tem a ver com isso. Seria como cobrar uma dívida de quem não a contraiu. É por isso que gera desconforto.

Daí o indivíduo vive como se passasse o tempo todo tentando recompensar a falta sentida numa espécie de vingança, negando aos outros aquilo que a ele foi negado. Isso se torna algo gera prazer mesmo no desprazer. A pessoa naturalmente desenvolve mecanismos de apego em relação ao dinheiro que ganha, age de forma desconfiada quanto a segredos bobos, daqueles que ninguém quer saber. Enfim, a frustração é para vida toda porque ela nunca vai reaver o que nunca teve. Quando ela nega e depois oferece, é como se reaviesse algum poder, é o momento quando posa de benfeitor. Só que não, pois isso desagrega e descontenta os demais. Deixar o outro esperar um pouco mais para depois ajudar, agir satiricamente ou esboçar humor irônico e sarcástico, antes de uma ajuda dá a ilusão de alegria a quem tem esse perfil.

Mas, se sou assim ou conheço pessoas que agem dessa maneira, o que fazer? Talvez a percepção de si no caminho da negação contínua junto à escolha de doar-se mais seja o caminho para uma reversão. Por ser um movimento que na maior parte das vezes é inconsciente, a autopercepção ou a busca de ajuda pode ser a saída. A verdade é que há um emaranhado de complexidade em tudo o que compõe a estrutura das relações no comportamento humano. Vale refletir.

Jair Donato* – Psicólogo, Jornalista, escritor, editor, professor universitário, mestre em Ensino Acadêmico, consultor, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.

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