OS QUATRO EUS

Por Jair Donato*

Por que é difícil lidar com determinadas características da personalidade humana? Por que há pessoas que não suportam ouvir, principalmente um feedback, que é o retorno numa comunicação?  Tem gente que se justifica o tempo todo, pressupõe, agride se for o caso, encoleriza-se, e até age como vitima, como se sempre estivesse certa. Admitir um erro? Difícil. Há também quem não sabe dar feedback, pois ao oferecer uma devolutiva, mesmo que seja a coisa certa a fazer, age de forma grosseira. São os que vivem mais no campo da autodefesa ou do ataque.  Mas, há os que convivem bem e são admiráveis. Tamanha é a complexidade do comportamento humano.

Saber ouvir desarmado de revide, refletir sobre uma crítica recebida de peito aberto sem se justificar ou se defender, não é para qualquer um. Nas relações humanas há indivíduos cuja percepção em relação a si, aos outros e ao meio em que vive é mínima, a baliza de si é a única régua para o mundo. Os profissionais que trabalham na área de relacionamento e gestão de pessoas sabem a importância de perceber que há diferentes níveis de perfis quando se trata do comportamento humano.

Na década de 1960 os psicólogos americanos Joseph Luft e Harry Ingham criaram o conceito de quatro janelas, como áreas existentes na personalidade do indivíduo que foi intitulado com as iniciais dos próprios nomes, Johari.  É um modelo aplicado para melhorar as relações interpessoais, através da consciência sobre dar e receber feedback, uma prática indispensável para o desenvolvimento pessoal.

A primeira janela foi descrita como “eu aberto”, conhecida como arena. Ou seja, são as características que existem no comportamento, reconhecidas pela própria pessoa e pelos outros ao mesmo tempo. Quando uma pessoa é simpática, por exemplo, ela sabe disso, e os demais também. Geralmente as pessoas espontâneas, sinceras, assertivas, que sabem ouvir, ponderam e negociam bem, transitam nessa área na maior parte do tempo. Não levam circunstâncias bobas para o lado pessoal. É o perfil mais adequado para receber um feedback.

“Eu cego” é a segunda janela. É a área que representa partes do comportamento que é facilmente percebido pelos outros, mas ignorado pela própria pessoa. É o que ela não sabe que é ou nega, mas os outros sabem, a exemplo do perfil de rispidez e deselegância no trato humano, mas que não admite ser assim. Retruca, mas não reflete. Ela despreza opinião contrária, se recusa a ver ou admitir características que são entraves para si mesma. São pessoas inflexíveis, resistentes, “donas da verdade”, que numa discussão a última palavra precisa ser as próprias, pois pensa que quem erra é sempre os outros. É um perfil difícil que pouco aceita mudanças, evita feedback e antes mesmo do interlocutor terminar, ele já nega, altera-se e, não duvide, é o tipo que ataca.

A penúltima janela foi denominada de “eu secreto”. Área conhecida como fachada por representar as coisas sobre a pessoa que ela conhece, mas que esconde dos outros. É um comportamento maquiado sobre as situações cuja finalidade é vender uma ideia daquilo que não é verdade. Pode ser a pessoa que dissimula ao fingir-se de desentendida, posa de vítima ou boazinha, com se a máscara nunca caísse. É o tipo que finge e pode até dizer que vai mudar ou que esteja arrependida, mas é só por fora. É um pseudo-bom samaritano que age por condescendência ou por conveniência.

Por fim a área do “eu desconhecido”. São partes das quais o indivíduo não está consciente, nem mesmo os outros. Memórias da infância, potencialidades latentes e aspectos desconhecidos da personalidade se alojam aí. É uma área rica, que contém referências escondidas e talvez nunca se tornem conscientes, mas com o aumento de abertura e feedback, isso facilita. É uma janela de potencial, excelente para quem trabalha com o desenvolvimento humano.

Através do modelo Janela Johari constata-se que lidar com todos esses perfis, facilmente encontrados dentro das organizações, é desafiante e exige habilidade. São fatores como transparência, sensibilidade, confiança, clareza, objetividade, bom senso e iniciativa que contribuem para a eficácia e a qualidade da comunicação e melhoria no relacionamento interpessoal.  Diz o escritor Leandro Doorneles que “não tem coisa mais complicada do que o relacionamento humano. No entanto, não existe momento mais belo do que o ato do relacionar humano”.  Bem isso.

Jair Donato* – Psicólogo, Jornalista, escritor, palestrante, editor, professor universitário, mestre em Ensino Acadêmico, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.

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Criado por Henrique Rolim