SOLTE A PANELA

Por Jair Donato*

Conta-se que certa vez um urso faminto perambulava pela floresta em busca de alimento. A época era de escassez, porém, ele tinha o faro aguçado, sentiu o cheiro de comida e foi até um acampamento de caçadores. Ao chegar lá, o urso percebeu que o local estava vazio, foi até a fogueira, ardendo em brasas, e dela tirou uma enorme panela de comida.

 

Quando a tina já estava fora da fogueira, o urso a abraçou com toda força e enfiou a cabeça dentro dela, devorando tudo. Mas, enquanto abraçava a panela, começou a perceber algo lhe atingindo. Na verdade, era o calor da tina. Ele estava sendo queimado nas patas, no peito e por onde mais a panela encostava. O urso nunca havia experimentado aquela sensação e, então, interpretou as queimaduras pelo corpo como uma coisa que queria lhe tirar a comida.

 

Começou a urrar muito alto. E, quanto mais alto rugia, mais apertava a panela quente contra si mesmo. Quanto mais a tina quente lhe queimava, mais ele apertava contra o próprio corpo e mais alto ainda rugia. Quando os caçadores chegaram ao acampamento, encontraram o urso recostado a uma árvore próxima à fogueira, segurando a tina de comida. Ele tinha tantas queimaduras que o fizeram grudar na panela. E o imenso corpo que possuía, mesmo morto, ainda mantinha a expressão de estar rugindo.

 

Ao refletir sobre essa analogia, percebe-se que na vida as pessoas também abraçam e se apegam a determinadas crenças limitantes e hábitos nocivos que destroem a si mesmas ao longo da vida. Morrem quando deixam de viver de modo natural recostadas nas consequências das próprias atitudes segurando uma enorme tina de vícios que ferem. Há quem se apega aos bens aparentes que exibem, outros a fortes preconceitos. Há quem possui uma visão estreita que enxerga somente aquilo que satisfaz a si, como o urso que procurava saciar a própria fome, sem olhar à volta.

 

O urso de forma irracional invadiu o acampamento pelo cheiro de comida que sentiu. E o homem, seria irracional como ele? Pois é como se fosse, a cada vez que ele repete movimento similar ao invadir o espaço do outro, usurpá-lo sem noção do altruísmo. É ainda o homem quem destrói a natureza em prol da própria avareza. E, com o tempo algumas dessas ‘panelas’ a que ele se agarra podem fazê-lo gemer de dor, queimar por fora e por dentro, e mesmo assim, ainda as julgarem importantes.

 

O indivíduo se queima cada vez quando se apega fácil à tina da vaidade e do orgulho, sendo guiado pelo cheiro do consumismo exacerbado. Mal percebe que o fato de não abandonar velhos paradigmas pode coloca-lo numa situação de sofrimento e de desespero. ‘Apertar’ coisas contra o coração e por vezes terminar derrotados por algo que tanto protege e defende, se chama apego, o que é doentio. Isso gera a incapacidade de mudar e de criar algo novo. E você, prende algo, pessoa ou situação a si mesmo? Se tiver algo que o queime, então solte.

 

Jair Donato* – Psicólogo, Jornalista, escritor, editor, professor universitário, mestre em Ensino Acadêmico, consultor, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.

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