TIRO NO PÉ

Por Jair Donato*

Por que muitas pessoas levam a si mesmas ao envolvimento em determinadas enrascadas que por vezes, colocam em risco a própria vida? Os mecanismos autônomos da mente humana são muito complexos a ponto de o próprio indivíduo prejudicar o script do destino dele. Em grande parte, isso se deve a fatores do inconsciente, termo empregado por Freud, pai da psicanálise, para designar uma parte oculta da mente. Mesmo numa empreitada que visa prejudicar o outro, conscientemente o indivíduo sempre deseja se sair bem e age deliberadamente visando driblar a quem quer que seja em face de um ganho rápido. Mas, ocultamente há um senso que algum dia e de alguma maneira ressoa mais alto como que levando o próprio ser a autoexpiação através de situações punitivas ou no mínimo constrangedoras. É um processo de autossabotagem que leva o indivíduo a minar a si mesmo.

Alguns fatos retratam esse tipo de situação como o de um rapaz que justificava não poder trabalhar devido a uma doença que possuía, por isso resolveu praticar um assalto. Mas, se atrapalhou e acabou disparando contra a própria perna. Como resultado, acabou sendo preso em flagrante pela polícia. Outro caso foi do adolescente que resolveu brincar de assalto com uma mulher que ia passando na rua e simplesmente levou um tiro que o levou a óbito. Teve outro do cidadão abusado que antes de ser liberado por um furto cometido, ficou preso porque furtou a carteira da bolsa da escrivã que colhia o depoimento dele. E um jovem de dezenove anos que perdeu o olho direito após atirar acidentalmente em si mesmo com uma pistola nove milímetros durante um assalto a um hotel. Ele ainda tentou continuar a ação, mas teve de ser hospitalizado e consequentemente preso.

Houve o caso do assaltante que após a prática do ato, saiu às ruas com uma camiseta roubada. Logo foi reconhecido e preso. Outro assaltante subtraiu o celular de um garoto de 12 anos no metrô e em seguida num lance de exibicionismo saiu tirando fotos de si, que instantaneamente foram enviadas para a mãe da vítima. A mãe publicou as fotos e ele foi pego em seguida. Há casos de quadrilhas que já foram presas após postarem vaidosamente armas nos perfis de redes sociais.

Certa vez um ladrão mascarado delatou a si mesmo durante o assalto que fez a uma loja. No incidente, ele embriagado olhou para as câmeras de segurança do local e berrou dizendo o próprio nome ao pedir que lhe passassem todo o dinheiro. Em seguida, retirou a máscara e continuou gritando o nome dele. É claro que a máscara caiu. Outro ladrão, antes de assaltar uma loja de uma capital, fez a entrega do currículo dele solicitando emprego. Como tinha todos os dados lá, inclusive endereço, ficou muito fácil para a polícia capturá-lo.

Esses são alguns dos exemplos de deslizes, erros, atos falhos, que são na verdade maneiras da pessoa se punir em decorrência de saber que cometeram atos errados, mas que conscientemente não se revelariam, porém se entregam através destes mecanismos punitivos. São expressões advindas do estado inconsciente do sujeito. Como o exemplo do homem que traia a mulher e certamente não contaria isso a ela conscientemente. Mas, certo dia chegou uma multa na casa dele pelo correio, por excesso de velocidade. O inusitado? É que na imagem registrada pelo radar quem estava na garupa da moto era a mulher com quem ele tinha um caso. Teve o caso de uma policial que se submeteu inconscientemente a um tamanho constrangimento e não soube lidar com ele, pois em seguida cometeu suicídio. A tragédia ocorreu depois de ela ter enviado uma mensagem de texto para o amante, só que se confundiu e o texto acabou sendo encaminhado para o marido. O conteúdo se tratava do agradecimento dela ao homem pela noite anterior que passaram juntos, e que ela esperava que novamente isso ocorresse.

Dificilmente você verá um indivíduo conscientemente desejando para si fracasso nos negócios ou em qualquer empreitada seja no âmbito social, financeiro e até mesmo nos relacionamentos. Há quem considere que isso passa pelo crivo do mero acaso, mas pode haver uma relação direta com os níveis mais profundos da mente humana a que facilmente não se tem acesso.  É perceptível que no âmbito consciente, as pessoas desejam sucesso, ganhar mais dinheiro, ter saúde e uma série de fatos bons. Portanto, é imprescindível que o indivíduo estabeleça uma autoavaliação sobre os hábitos que possui rotineiramente. Perceber se eles são construtivos ou destrutivos. Assim como o profissional na empresa deve observar se a liderança que utiliza ao influenciar as pessoas é benéfica ou mascara os objetivos e referências conscientes que possui. Conscientemente, ninguém atira no próprio pé.

Jair Donato* – Psicólogo, Jornalista, escritor, editor, professor universitário, mestre em Ensino Acadêmico, consultor, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.

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Criado por Henrique Rolim