XÍCARA CHEIA

Por Jair Donato*

Há quem vive como se de tudo já soubesse, porta-se como se dono da verdade fosse e age de tal modo como se nada mais houvesse para aprender. Apresenta-se como se fosse uma criatura pronta e sem espaço para o novo, soberbamente detentora do conhecimento e da sabedoria.

Há o conto de um grande sábio, no Tibete, que uma vez por ano fazia a escolha de novos discípulos. Ele morava num castelo no alto de uma montanha. E a própria caminhada até lá já era uma forma natural de seleção aos tantos pretendentes à sabedoria. Todas as vezes que o sábio se via diante de cada candidato, estendia duas almofadas para que se sentassem frente a frente, e trazia consigo um bule com chá e duas xícaras.  À medida que entrevistava cada um deles, enchia a própria xícara até que ela se transbordasse; e assim acontecia um após o outro.

Certa vez, um dos candidatos o interpelou para saber o motivo de ele deixar o chá derramar daquela maneira, pois era um desperdício, já que era tão sábio e iluminado. Ao que o mestre respondeu-lhe: – O chá é uma forma natural de seleção que utilizo para escolha dos meus discípulos. Porque eu não quero que as pessoas se sintam assim, como essa xícara, cheia, pronta. E complementou: “Esse é o verdadeiro segredo da sabedoria”.

O ato de derramar o líquido na xícara corresponde a dizer “não à sabedoria”. É quando o indivíduo mesmo com parco conhecimento e experiência que acumula na trajetória individual considera-se apto a defender verdades e postular-se formado, pronto, sem nada a acrescentar. Isso é ameaçador, presunçoso e limitante. Já o ato de conter, mandar parar, evitar que transborde equivale ao desejo de conhecer, e não considerar-se pronto. Se não mantiver a xícara cheia, sempre haverá espaço para caber mais. Quando a mente está propícia a receber, a aprender, naturalmente ali há o desenvolvimento, a evolução cotidiana.

Na verdade, a vida é uma aprendizagem contínua e não há conhecimento que justifica não buscar o autodesenvolvimento. Não há ação saudável se nela prevalece o egoísmo. Não há sábios completos, tampouco há quem de nada sabe. Foi Galileu Galilei quem disse: “Nunca encontrei um homem tão ignorante que não pudesse aprender nada com ele”. Então, como está sua xícara no trabalho, nos seus relacionamentos interpessoais e na sua vida pessoal? Você se permite conter-se, não esvaziar-se por completo, tampouco assoberbar-se?

O professor Masaharu Taniguchi, destacado filósofo japonês do século XX, afirmou que “a vida do ser humano começa a se arruinar quando ele passa a se envaidecer dos próprios conhecimentos e a se considerar diplomado”. Então, deixar espaço em todas as áreas da vida para agregar mais conhecimento, aceitar a mudança, privilegiar a humildade, sem envaidecer-se, pode ser a chave para o segredo da sabedoria a que o mestre tibetano se referenciou.

Jair Donato* – Psicólogo, Jornalista, escritor, editor, professor universitário, mestre em Ensino Acadêmico, consultor, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.

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